Relato de Parto - Eu sofri Violência Obstétrica

Foram incontáveis os relatos de parto que li durante minha gravidez. Claro, na intenção de me sentir motivada e com menos medo quando chegasse minha hora. 

Então se você que está lendo esse texto agora está procurando relatos inspiradores e motivacionais de parto normal, leia outra matéria desse blog, pois esse relato não é pra você. 





O que vou tentar fazer agora é traduzir em palavras a experiência mais aterrorizante da minha vida.

"Nossa, mas o parto é um momento maravilhoso, transcendental, depois que o bebê nasce a dor some!" Bom, comigo não foi bem assim.



As contrações já estavam de 5 em 5 minutos quando cheguei a maternidade e por isso já fui logo internada, mas infelizmente estava apenas com 2,5cm de dilatação.


A madrugada seria longa!


Minha tia ficou comigo, passou a noite ao meu lado. Não foi a noite mais confortável da vida dela, não havia cadeira, poltrona, tijolinho, nada pra acompanhante sentar! Sabe aquelas escadinhas que ficam em baixo da cama de hospital? Então, foi ali que ela sentou e tentou dar uns pequenos cochilos. 

Eu nunca fantasiei meu parto sendo um Parto "Natural", no estilo Bela Gil, pois eu já imaginava que haveriam intervenções, mas também, não imaginava que seria como foi.

Infelizmente não dei sorte e o Doutor que estava de plantão, não tinha a mão muito leve para fazer o exame de toque. 
A noite foi tranquila, entre idas ao banheiro e cochiladas, contrações levemente doloridas e a água da bolsa escorrendo pelas pernas toda vez que eu levantava. 

Amanhece o dia, mais um exame de toque dolorido e chegamos a 4cm de dilatação. Eu estava achando que estava indo bem... mas SUS é SUS né meu Brasil? Somos apenas um número ocupando uma vaga ali.

Então quando cheguei a 6cm de dilatação às 9h da manhã, veio o tão temido "sorinho". Era o que eu mais temia: ocitocina sintética! Cansei de ler relatos do quanto a indução doia mais do que as contrações naturais. E olha, esse negócio não é pra brincadeira. No terceiro pingo do soro e eu já comecei a sentir DOR de verdade.

Elas começaram a vir em ondas. Gostaria de conseguir explicar essa dor pra quem nunca teve filho, pois essa era uma das minhas maiores curiosidades. Mas não dá. Li muitas mulheres descrevendo com uma cólica mais forte. Mas na minha opinião, não achei nada parecido com cólica. 

Desse ponto em diante, fica completamente impossível ser racional. Não fui pra "partolândia", mas durante as dores não conseguia controlar meu corpo.

Minha tia sempre dizia: "quando a dor vier, faz força como se você fosse fazer número dois", mas não dava, a dor vinha e eu só conseguia me contorcer. 

Não sei quanto tempo depois, veio o segundo médico, o que faria meu parto, falando várias gracinhas do tipo: "Nossa, por que essa cara feia?" "Fica deitada de lado que vai mais rápido!" Oi??? Enfim, ele veio estourar minha bolsa, ela estava rompida, porem não havia estourado ainda. Mais uma intervenção desnecessária! :( 

Dor, dor, dor e mais dor. Pela primeira vez na vida eu gritei de dor. Sim eu gritei! Não havia como não gritar, era uma dor intensa demais, como eu nunca havia sentido. Por vezes eu desejava que aquilo fosse um pesadelo e que a qualquer momento eu acordaria e dor acabaria. Não havia mais espaços entre a dores, não dava mais pra respirar... nesse momento eu consegui fazer a força pra baixo, a força de fazer número dois! Na verdade, meu corpo fazia sozinho! Meu corpo sabia o que fazer, nosso corpo sabe o que fazer, é instintivo, é natural, só que cada corpo tem seu tempo, não seguimos um protocolo.

Minha tia Míriam, ali ao meu lado o tempo todo, me dando apoio, me olhando nos olhos e me fazendo sentir que eu estava indo bem. Foi ela quem chamou o médico, pois a hora havia chegado. Ele já estava querendo nascer e nasceria ali mesmo se eu não fosse levada logo para a sala de parto. O médico veio, "dilatação completa!", ele disse, depois de mais um toque.

Vieram as enfermeiras, me mandando descer da cama e me levando andando para sala de parto. "Não faz força!", elas diziam, "se não seu bebê vai cair no chão!". Como não vou fazer força? Vocês injetam hormônio sintético em mim, pra acelerar o trabalho de parto e agora querem que eu simplesmente pare de fazer meu corpo reagir a ele? Onde fica o botão PARAR DE SENTIR CONTRAÇÃO? Eu não sei desligar o processo moça! 

Chegamos a sala de parto. Que acolhedora! Parece que gravaram algum filme de terror ali. 
Subo na cama, coloco as pernas naquele treco gelado, meu corpo esta no auge do trabalho de parto. Dor ao máximo! Minha tia do meu lado, meu apoio, meu porto seguro no momento de desespero. Mais uma contração e um dos apoios da perna quebrou. Que sorte a minha! 
Agora eu precisava manter as pernas abertas, não podia fechar, nem quando meu corpo se contraia e fazia com que elas se fechassem, vieram mais enfermeiras, gritavam comigo pra manter a perna na antiga posição, como ela estava quando tinha o apoio. Meu ciático doía, não adiantava minha tia explicar, elas forçavam minha perna pra fora, achei que fossem me quebrar. Minhas coxas ficaram marcadas.
Elas precisavam segurar minha perna para que o médico me cortasse. Será que era realmente necessário?

"Ok, já que não tem jeito, que venha a EPISIO!" eu pensei. Não seria tão ruim, se a anestesia tivesse pego. Mais uma vez, não tinha como não gritar. Senti o corte e foi mais uma dor inexplicável.

De todas essas dores, a saída do Logan foi o de menos. Ele chegou, com uma circular de cordão no pescoço, com 3,100kg e 52cm às 10:26 de uma terça-feira 24 de Janeiro.
Ele não veio para os meus braços, apenas vi o médico levantá-lo. Segundos depois ouvi seu choro, já estava sendo limpo ali no cantinho, previamente eu já havia combinado com minha tia, quando ele nascesse, para que ela não tirasse os olhos dele. E assim ela o fez!

Logo em seguida ele veio a mim. Meu filho! Lindo, cabeludo, forte! Senti seu cheio, beijei. Queria ficar com ele agarrado em mim. Mas o levaram de novo, dessa vez pra fora da sala de parto. 

Acabou? Não! Depois de puxarem minha placenta é hora dos pontos! 

Se lembra que a anestesia não pegou? Então, isso não foi problema para o doutor começar a me costurar.
Meu corpo tremia todo. Não sei se pela força que fiz ou pela adrenalina no sangue, mas eu me tremia muito. Não conseguia manter a perna imóvel.
"Fica com a perna parada, se não vai demorar mais!"
Experimenta parir um filho, ser costurado sem anestesia e ficar imóvel? Impossível!
Ele me furava, enfiava gase em mim sem nenhum cuidado, como se eu estivesse anestesiada.
Aquilo doía muito, não acabava, eu queria sair logo dali e ver meu filho. Ele ainda me deu várias espetadas antes de me dar outra anestesia. Esses "profissionais" estão ficando cada vez menos sensíveis e mais sádicos. 
Por que ele não me deu anestesia quando eu disse que estava sentindo dor?
Então ele deu a segunda anestesia, terminou de costurar e foi embora. Não antes de me chamar de chata.

Violentada! Impotente! Apenas um pedaço de carne!

Foi como me senti, enquanto me tiravam dali. Não consegui chorar ao ver meu filho, fui tomada por uma sensação de humilhação. Me sentia pequena, frágil, quando na verdade deveria me sentir a pessoa mais forte do mundo.

O parto é um momento muito especial, delicado e ao mesmo tempo forte, na vida de uma mulher. Deveria ser SAGRADO! Deveria ser respeitado! Deveria ser HUMANIZADO!

Meu filho é a coisa mais linda e preciosa da minha vida, mas sua chegada eu gostaria de esquecer.

Se você é um profissional de saúde, HUMANIZE-SE! Seja uma lembrança boa na memória de uma mãe.

E se você sofreu algum tipo de Violência, seja obstétrica ou não, DENUNCIE, Ligue 180 e não se cale diante do medo.

Hoje estou aproveitando minha LUA DE LEITE com meu filhote, farei o diário de maternidade lá no YOUTUBE. Clique AQUI e acesse.

Te vejo no próximo post!! 



3 comentários:

  1. Olha, foi angustiante ler seu depoimento. Fico pensando onde foi parar a humanidade e o amor ao próximo. Que tipo de médico estamos formando? Pessoas que deveriam cuidar de outros seres humanos se comportando como máquinas e tratando pacientes como objetos... não sei o que esperar do futuro...

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    1. Triste minha amiga! Tenho muito medo do futuro tambem viu!

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  2. Passei, exatamente pelo mesmo processo que você (na Pro Matre)sem anestesia para corte e pontos, na verdade você descreveu o parto no qual nasceu minha filha mais velha... e isso foi há 40 anos! Pelo jeito, nada mudou, nada se modernizou, continuamos a ser um inconveniente para o plantonista!

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